domingo, 17 de maio de 2015

Blog de Ademir Damião: Cidades e desenvolvimento sustentável: Mito ou realidade?

Blog de Ademir Damião: Cidades e desenvolvimento sustentável: Mito ou realidade?

Cidades e desenvolvimento sustentável: Mito ou realidade?



Os dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que 54% da população mundial residem nos centros urbanos, taxa que chega aos 84% no Brasil, conforme resultados do censo de 2010, havendo indicativos do crescimento desses percentuais nos próximos anos, demonstrando necessidade de se pensar a proposta de desenvolvimento de cada cidade, a qual sinaliza futuro pretendido para a mesma.
A análise da situação nos centros urbanos, notadamente naqueles considerados como médios e grandes, aponta para um desenvolvimento cada vez menos sustentável, com problemas estruturais não solucionados ao longo do tempo, bem como por um planejamento que favorece um crescimento que não atende a demanda de grande parte da população, mantendo um processo de exclusão social.
Lembrando que o termo “desenvolvimento sustentável” foi registrado em documentos oficiais pela primeira vez em 1987, através do “Relatório Brundtland”, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, e a partir de então, passou a fazer parte de diversos documentos governamentais em vários países, incluindo o Brasil, sendo um dos pilares das Agendas 21 global, nacional e locais.
Uma das definições usual de desenvolvimento sustentável diz que é “o desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras atenderam suas próprias necessidades”, cuja análise demonstra que os centros urbanos caminham em sentido oposto de tal desenvolvimento, ou seja, vem atingindo um nível de vida considerada coletivamente como insatisfatório e não oferecem condições adequadas para uma perfeita sobrevivência humana ao longo dos anos.
De um modo geral, as cidades, que são constituídas de desigualdades socioespaciais, enfrentam problemas estruturais, entre os quais se destacam:
- Falta de uma política habitacional que atende a população mais pobre, levando a um crescimento do número de favelas e áreas de baixa renda.
- Ocupação desordenada de áreas naturais, como mangues, estuários, áreas alagadas, margens de rios pela população carente e também por pessoas de maior poder aquisitivo e empreendimentos diversos, com risco de enchentes em período chuvoso.
- Risco de deslizamentos erosões, devido a ocupação de áreas de encostas.
- Inexistência de uma política de arborização, que possibilite a ampliação das áreas verdes.
- Poluição hídrica provocada pelo lançamento de efluentes líquidos sanitários e industriais e disposição inadequada de resíduos sólidos.
- Falta de política voltada para reciclagem dos resíduos sólidos juntamente com um trabalho educativo voltado para diminuir a geração dos mesmos, visto o aceleramento do nível consumo da sociedade.
- Sobrecarga na rede de infraestrutura urbana e na oferta dos serviços públicos, devido o aumento de grandes edifícios.
- Engarrafamentos diários decorrentes do crescimento do uso de veículos particulares, faltando se dá prioridade para o transporte público, o que contribui com a ampliação da poluição atmosférica.
Além destes problemas estruturais, a falta de adoção do modelo de desenvolvimento sustentável nas cidades pode ser constatada através das propostas que vem sendo e se pretendem implantar para o uso do solo, como a recente sanção de uma lei em Recife, a qual institui o plano específico para o Cais José Estelita, Santa Rita e Cabanga, prevendo a implantação, de torres residenciais e empresariais, que mudará por completo as características ambiental, social, histórica e cultural das três localidades situadas no centro da capital pernambucana.
O referido plano específico, caso seja concretizado, possibilitará a implantação do polêmico Projeto Novo Recife no Cais José Estelita, o qual tem a oposição de diversos segmentos da sociedade e irá beneficiar uma elite social em detrimento, novamente, das pessoas mais pobres, ressaltando que os gestores públicos defendem a mesma concepção de desenvolvimento para outras localidades da cidade, tendo como exemplo, a proposta de implantação de empreendimentos particulares na área da Vila Naval, no bairro de Santo Amaro, ou seja, beneficiando, novamente, a iniciativa privada.
Finalizando, observa-se que a adoção do modelo de desenvolvimento sustentável nas cidades necessita contemplar as desigualdades ora existentes, através da execução ações que atendam o interesse da maioria da população e não de determinados grupos econômicos, além de priorizar a democratização das decisões, permitindo a permanente participação da sociedade, abrindo canais de diálogo efetivo com os segmentos sociais.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Blog de Ademir Damião: Uso insustentável da água

Blog de Ademir Damião: Uso insustentável da água

Uso insustentável da água

Os movimentos e especialistas ambientalistas se contrapuseram, durante anos, a concepção que a água era um recurso natural infinito, sem a obter a adesão dos governantes e dos diversos segmentos sociais no sentido da implantação de medidas voltadas para sua utilização de forma racional.
Observou-se, então, que o ser humano utilizou os recursos hídricos sem planejamento, verificando-se um consumo exagerado e desordenado, bem como sem perspectivas para o futuro, culminando com a atual crise hídrica que atinge milhares de pessoas em várias partes do mundo, inclusive em grandes centros urbanos brasileiros, que, anteriormente, não passavam por esse problema.
O pensamento da supremacia humana reinante no mundo ocidental, decorrente do princípio que o homem pode fazer e ter tudo já que havia sido feito a imagem e semelhança de Deus, levou uma parcela dos seres humanos a manter uma relação desarmoniosa com a natureza, cujos recursos foram utilizados, historicamente, para manutenção do poder econômico e social, incluindo a questão da água, usada preferencialmente para atender os interesses dos grandes proprietários de terras e empreendimentos industriais.
Esta situação continua persistindo e atualmente no Brasil tem-se um consumo excessivo dos recursos hídrico na agropecuária e indústrias, logo as ações voltadas para uso racional da água não podem se restringir exclusivamente para as atividades domésticas e deveriam incluir os setores produtivos do campo e do meio urbano.
Os recursos hídricos continuam sendo constantemente agredidos pelo lançamento e despejo de efluentes líquidos, produtos químicos, resíduos sólidos, ou seja, por aquilo descartado pela sociedade, além de sofrer com o uso inadequado do solo, queimadas, devastação de mata ciliar e desmatamento de forma generalizada, proporcionando aceleração do processo erosivo dos recursos hídricos.
O quadro acima evidencia que as ações humanas são majoritariamente desenvolvidas de forma insustentável, acelerando os efeitos negativos do aquecimento global e a consequente diminuição do período chuvoso, causando sérios prejuízos ao ciclo hidrológico, levando a escassez de água e ocasionando estiagem em diversas regiões do planeta, entre as quais o semiárido e centros urbanos brasileiros.
Analisando as ações educativas relacionadas a ampliação da consciência sobre a importância do uso racional da água, incluindo aquelas desenvolvidas nas recentes comemorações do “Dia Mundial da Água”, verifica-se que, até o momento, os resultados positivos obtidos foram limitados, faltando um aprofundamento das causas da  crise hídrica, pois tais ações geralmente se voltam diretamente para atitudes individuais, como, se desta forma, os problemas atuais dos recursos hídricos pudessem ser superados.
Com o aprofundamento citado acima, haveria oportunidade da constatação que o problema da água se encontra relacionado com o modelo de vida da sociedade, centrado no consumismo exagerado e valorização do individualismo, mazelas decorrentes de um sistema econômico globalizado e excludente.
Por outro lado, a implantação de políticas públicas de saneamento nos estados brasileiros, assim como aquelas dos demais setores, prioriza o atendimento às elites sociais, não possibilitando a democratização da oferta dos serviços, além de serem desenvolvidas gestões deficientes que chega acarretar um desperdício em torno de 37% da água tratada.
Finalizando, verifica-se que a crise hídrica vivida pela sociedade brasileira não será superada sem uma mudança das práticas usualmente utilizadas não só por parte de cada pessoa individualmente, assim como pela agropecuária, indústrias e demais setores produtivos, os quais necessitam assumir seus compromissos sociais, adotando medidas que diminuam o desperdício e a escassez de água, juntamente com a melhoria das gestões públicas de saneamento, incluindo a construção de espaços participativos e de controle social.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Blog de Ademir Damião: Crise hídrica e a regulação da grande mídia

Blog de Ademir Damião: Crise hídrica e a regulação da grande mídia

Blog de Ademir Damião: Crise hídrica e a regulação da grande mídia

Blog de Ademir Damião: Crise hídrica e a regulação da grande mídia

Crise hídrica e a regulação da grande mídia

Em qualquer programa jornalístico a nível nacional, vem se observando notícias sobre a crise hídrica que assola principalmente os estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, relatando a situação vivenciada, diariamente, pela população com a carência de água devido o baixo nível dos rios, bem como diversas propostas que os chamados “especialistas” apontam para solucionar tal problema.
Uma grande parte da população nordestina vem sofrendo, anos após anos, com problemas decorrentes da seca, sem que o assunto tivesse uma cobertura dos grandes meios de comunicação social, principalmente as redes de televisão, de forma semelhante como vem ocorrendo atualmente, quando a falta de água atingiu os estados da Região Sudeste do Brasil.
O destaque dado ao assunto mostra como, historicamente, a grande mídia nacional colocou a Região Nordeste em segundo plano, já que no período em que a seca era um problema específico do Nordeste não havia tanto espaço de abordagem da questão nos noticiários, ocorrendo, apenas, reportagens esporádicas.
Outro aspecto que merece ser analisado é o comportamento dúbio dos meios de comunicação em massa, que contribuíram decisivamente com a estratégia política de governos estaduais, principalmente no caso de São Paulo, no sentido de esconder a crise hídrica durante o período eleitoral do ano passado, buscando beneficiar candidaturas ao executivo estadual, só divulgando fatos isolados da situação até a realização das eleições, quando, então, passou a divulgar o problema com maior ênfase, como se, anteriormente, os problemas não estivessem ocorrendo em larga escala.
No tocante ao conteúdo dos programas jornalísticos se verifica, em grande parte, que a falta de chuva é colocada como a vilã da crise hídrica, sem haver um aprofundamento das verdadeiras causas dos problemas, as quais se encontram relacionadas às ações anteriores do ser humano referentes ao uso irracional dos recursos naturais e a ideia que a água era um recurso inesgotável.
Algumas reportagens procuram culpabilizar as pessoas individualmente pela crise hídrica, diante problemas de vazamento nas instalações de suas residências ou pelo aumento do consumo da água, que, certamente, tem contribuição com o atual estado, porém não no nível alardeado nos noticiários, lembrando que haveria necessidade de analisar a problemática com maior profundidade.
Caso a grande mídia realizasse tal análise verificaria que a forma como parcela dos seres humanos pertencente a elite privilegiada utiliza os recursos naturais, buscando manter o “status quo” do lucro excessivo e da propriedade privada, contribui decisivamente com o uso irracional de água e ampliação da crise hídrica, lembrando que tal utilização é baseado no argumento defendido por parte da sociedade humana, que tendo como base a concepção que os seres humanos foram feitos a imagem e semelhança de Deus, logo tem poder total sobre a natureza, que, então, pode ser transformada  e apropriada para manutenção da exploração econômica e exclusão social.
Como a questão não é reportada nitidamente pelos grandes meios de comunicação social, não se analisa com profundidade que a diminuição do volume de águas nos rios e demais recursos hídricos e os prejuízos ao ecossistema ali existente são consequência do fato que o ciclo hidrológico não vem ocorrendo  completamente devido a poluição, queimadas, devastação de mata ciliar e desmatamento de forma generalizada, havendo uso inadequado do solo para atividades humanas.
É essencial, portanto, que os meios de comunicação em massa assumam sua responsabilidade social, e, para tanto, deveria realizar um trabalho educativo para que a população torne-se verdadeiramente protagonista na busca de soluções para crise hídrica, pois sem o controle social e a participação da sociedade dificilmente as saídas duradouras para tal crise serão encontradas e viabilizadas pelos governantes.
Finalizando, observa-se a importância da regulação e democratização   dos meios de comunicação em massa, pois, atualmente, utilizando o argumento da liberdade de imprensa se tem uma atuação deplorável da grande mídia, a qual não atende os interesses da coletividade, como se vê na questão da crise hídrica acima abordada.