sexta-feira, 27 de março de 2015
Uso insustentável da água
Os movimentos e especialistas ambientalistas se contrapuseram, durante anos, a concepção que a água era um recurso natural infinito, sem a obter a adesão dos governantes e dos diversos segmentos sociais no sentido da implantação de medidas voltadas para sua utilização de forma racional.
Observou-se, então, que o ser humano utilizou os recursos hídricos sem planejamento, verificando-se um consumo exagerado e desordenado, bem como sem perspectivas para o futuro, culminando com a atual crise hídrica que atinge milhares de pessoas em várias partes do mundo, inclusive em grandes centros urbanos brasileiros, que, anteriormente, não passavam por esse problema.
O pensamento da supremacia humana reinante no mundo ocidental, decorrente do princípio que o homem pode fazer e ter tudo já que havia sido feito a imagem e semelhança de Deus, levou uma parcela dos seres humanos a manter uma relação desarmoniosa com a natureza, cujos recursos foram utilizados, historicamente, para manutenção do poder econômico e social, incluindo a questão da água, usada preferencialmente para atender os interesses dos grandes proprietários de terras e empreendimentos industriais.
Esta situação continua persistindo e atualmente no Brasil tem-se um consumo excessivo dos recursos hídrico na agropecuária e indústrias, logo as ações voltadas para uso racional da água não podem se restringir exclusivamente para as atividades domésticas e deveriam incluir os setores produtivos do campo e do meio urbano.
Os recursos hídricos continuam sendo constantemente agredidos pelo lançamento e despejo de efluentes líquidos, produtos químicos, resíduos sólidos, ou seja, por aquilo descartado pela sociedade, além de sofrer com o uso inadequado do solo, queimadas, devastação de mata ciliar e desmatamento de forma generalizada, proporcionando aceleração do processo erosivo dos recursos hídricos.
O quadro acima evidencia que as ações humanas são majoritariamente desenvolvidas de forma insustentável, acelerando os efeitos negativos do aquecimento global e a consequente diminuição do período chuvoso, causando sérios prejuízos ao ciclo hidrológico, levando a escassez de água e ocasionando estiagem em diversas regiões do planeta, entre as quais o semiárido e centros urbanos brasileiros.
Analisando as ações educativas relacionadas a ampliação da consciência sobre a importância do uso racional da água, incluindo aquelas desenvolvidas nas recentes comemorações do “Dia Mundial da Água”, verifica-se que, até o momento, os resultados positivos obtidos foram limitados, faltando um aprofundamento das causas da crise hídrica, pois tais ações geralmente se voltam diretamente para atitudes individuais, como, se desta forma, os problemas atuais dos recursos hídricos pudessem ser superados.
Com o aprofundamento citado acima, haveria oportunidade da constatação que o problema da água se encontra relacionado com o modelo de vida da sociedade, centrado no consumismo exagerado e valorização do individualismo, mazelas decorrentes de um sistema econômico globalizado e excludente.
Por outro lado, a implantação de políticas públicas de saneamento nos estados brasileiros, assim como aquelas dos demais setores, prioriza o atendimento às elites sociais, não possibilitando a democratização da oferta dos serviços, além de serem desenvolvidas gestões deficientes que chega acarretar um desperdício em torno de 37% da água tratada.
Finalizando, verifica-se que a crise hídrica vivida pela sociedade brasileira não será superada sem uma mudança das práticas usualmente utilizadas não só por parte de cada pessoa individualmente, assim como pela agropecuária, indústrias e demais setores produtivos, os quais necessitam assumir seus compromissos sociais, adotando medidas que diminuam o desperdício e a escassez de água, juntamente com a melhoria das gestões públicas de saneamento, incluindo a construção de espaços participativos e de controle social.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Crise hídrica e a regulação da grande mídia
Em qualquer programa
jornalístico a nível nacional, vem se observando notícias sobre a crise hídrica
que assola principalmente os estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro, relatando a situação vivenciada, diariamente, pela população com a
carência de água devido o baixo nível dos rios, bem como diversas propostas que
os chamados “especialistas” apontam para solucionar tal problema.
Uma grande parte da
população nordestina vem sofrendo, anos após anos, com problemas decorrentes da
seca, sem que o assunto tivesse uma cobertura dos grandes meios de comunicação
social, principalmente as redes de televisão, de forma semelhante como vem
ocorrendo atualmente, quando a falta de água atingiu os estados da Região
Sudeste do Brasil.
O destaque dado ao
assunto mostra como, historicamente, a grande mídia nacional colocou a Região
Nordeste em segundo plano, já que no período em que a seca era um problema
específico do Nordeste não havia tanto espaço de abordagem da questão nos
noticiários, ocorrendo, apenas, reportagens esporádicas.
Outro aspecto que merece ser analisado é o comportamento dúbio dos meios
de comunicação em massa, que contribuíram decisivamente com a estratégia
política de governos estaduais, principalmente no caso de São Paulo, no sentido
de esconder a crise hídrica durante o período eleitoral do ano passado,
buscando beneficiar candidaturas ao executivo estadual, só divulgando fatos
isolados da situação até a realização das eleições, quando, então, passou a
divulgar o problema com maior ênfase, como se, anteriormente, os problemas não
estivessem ocorrendo em larga escala.
No tocante ao conteúdo dos programas jornalísticos se verifica, em
grande parte, que a falta de chuva é colocada como a vilã da crise hídrica, sem
haver um aprofundamento das verdadeiras causas dos problemas, as quais se
encontram relacionadas às ações anteriores do ser humano referentes ao uso
irracional dos recursos naturais e a ideia que a água era um recurso
inesgotável.
Algumas reportagens procuram culpabilizar as pessoas individualmente
pela crise hídrica, diante problemas de vazamento nas instalações de suas
residências ou pelo aumento do consumo da água, que, certamente, tem
contribuição com o atual estado, porém não no nível alardeado nos noticiários,
lembrando que haveria necessidade de analisar a problemática com maior
profundidade.
Caso a grande mídia realizasse tal análise verificaria que a forma como
parcela dos seres humanos pertencente a elite privilegiada utiliza os recursos
naturais, buscando manter o “status quo” do lucro excessivo e da propriedade
privada, contribui decisivamente com o uso irracional de água e ampliação da
crise hídrica, lembrando que tal utilização é baseado no argumento defendido
por parte da sociedade humana, que tendo como base a concepção que os seres humanos
foram feitos a imagem e semelhança de Deus, logo tem poder total sobre a
natureza, que, então, pode ser transformada e apropriada para
manutenção da exploração econômica e exclusão social.
Como a questão não é reportada nitidamente pelos grandes meios de
comunicação social, não se analisa com profundidade que a diminuição do volume
de águas nos rios e demais recursos hídricos e os prejuízos ao ecossistema ali
existente são consequência do fato que o ciclo hidrológico não vem ocorrendo completamente
devido a poluição, queimadas, devastação de mata ciliar e desmatamento de forma
generalizada, havendo uso inadequado do solo para atividades humanas.
É essencial, portanto, que os meios de comunicação em massa assumam sua
responsabilidade social, e, para tanto, deveria realizar um trabalho educativo
para que a população torne-se verdadeiramente protagonista na busca de soluções
para crise hídrica, pois sem o controle social e a participação da sociedade
dificilmente as saídas duradouras para tal crise serão encontradas e
viabilizadas pelos governantes.
Finalizando, observa-se a importância
da regulação e democratização dos meios
de comunicação em massa, pois, atualmente, utilizando o argumento da liberdade
de imprensa se tem uma atuação deplorável da grande mídia, a qual não atende os
interesses da coletividade, como se vê na questão da crise hídrica acima
abordada.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Humor ou ofensa?
Em uma
entrevista para uma revista de circulação nacional, o humorista Renato Aragão
(Didi), se reportando as piadas discriminatórias realizadas no período do
programa denominado “Os Trapalhões”, afirmou que "Hoje, todas as classes
sociais ganharam a sua praia, e a gente tem que respeitar muito isso. Eu sou
até a favor. Mas, naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos
homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para
sacanear".
Refletindo
sobre a entrevista, é importante lembrar que o programa de Renato Aragão teve
seu auge na época da ditadura militar, época de repressão e domínio da censura
as produções artísticas, logo, é de se imaginar que tal programa possuía a conivência
dos governantes de então, pois não há registros que tenha sofrido nenhuma espécie de censura, ou seja, havia
permissão oficial para as piadas sobre negros e gays, que, certamente, serviam
como uma das “válvulas de escape” para o momento político naquele período.
Como não
havia espaços para nenhum grupo se opor as ideias divulgadas na mídia,
inclusive no programa do referido humorista, não há, portanto, nenhum
embasamento para a afirmativa que “os negros e homossexuais não se ofendiam”,
se verificando que tais grupos e outros que sofressem ofensa e injúria se viam
obrigados aceitar o fato de serem massacrados semanalmente através de um humor preconceituoso.
Não se
pode esquecer que o período referenciado por Didi corresponde aquele em que
atores e atrizes de cor negra tinham espaços limitados nas produções artísticas
da televisão, só sobrando interpretações de papeis como escravos, porteiros e
empregados domésticos, demostrando a existência uma cultura preconceituosa na
mídia, que eram mantidas em programas humorísticos como os Trapalhões e outros semelhantes.
A
entrevista mostra que a problemática histórica do preconceito e da discriminação
dos meios de comunicações do Brasil ainda necessita de ações concretas para
serem superadas, pois, atualmente, com o argumento de “liberdade de imprensa e
de expressão”, algumas pessoas defendem que podem continuar fazendo piadas com cunho de racismo, homofobia, xenofobia, machismo e intolerância religiosa, afirmando que o autodenominado “humor politicamente correto” impede
a criatividade do artista.
Vê-se,
então, uma situação aberrante, pois aceitar tal “liberdade de imprensa e de
expressão” nos leva aceitar que determinados grupos sociais, geralmente,
excluídos socialmente, continuem sendo objeto de um humor sujo e sem ética,
construído sem respeito a dignidade e ao valor humano.
É importante
registrar a ideia defendida por Austro Queiroz, fundador do Movimento Phenix,
amigo deste blogueiro e que faleceu em 2012, o qual afirmava que se a pessoa
que fosse objeto de uma greia não risse com a brincadeira, a mesma não teria
sentido e perderia seu objetivo, cabendo, então, perguntar: Será que Mussum ria
das piadas de Renato Aragão?......
Deve se
ressaltar que a regulação da mídia certamente contribuiria para minimizar esta
situação, porém só com mudanças concretas da forma de agir da população se dará
passos concretos para derrubar as barreiras do preconceito e discriminação
ainda mantidas por alguns segmentos sociais, como por exemplo, no tocante a questão
racial.
A
entrevista oferece a oportunidade de refletimos sobre a defesa do autor de ação
racista, que é, geralmente, afirmar que “tudo não passa de um engano, que não
quis efetuar ofensa racial e que tem até amigos negros”, devendo se destacar
que a sutileza do racismo no Brasil dificulta sua identificação, pois não
ocorre de forma direta, se apresentando camuflado.
Assim
como os negros e negras, outros grupos discriminados passam por situação
semelhante, havendo necessidade urgente de se rever práticas, abrindo
discussões sobre o tema em diversos esferas de relacionamento, como família,
escola, igreja, trabalho, pois só uma nova sociedade brasileira só será
construída, caso haja mudanças de posturas das pessoas, se respeitando o
semelhante pelo que ele(ou ela) é e não por aquilo que queremos que seja, nos
transformando em uma sociedade tolerante e verdadeiramente democrática.
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